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Descrição do Rio de Janeiro – Comércio – Organização da Sociedade – Visita à fazenda do Príncipe Regente em Santa Cruz.

NYPL – Debret – Praça do Palácio 
NYPL – Debret – Praça do Palácio
 
O Rio de Janeiro foi tantas vezes descrito por outros viajantes, que, se me limitasse a suprir o que eles omitiram, ou à correção das suas falsas informações, realizaria minha tarefa com rapidez, mas como resolvi escrever de maneira uniforme, e livremente, sobre as minhas próprias observações, ao invés de seguir as pegadas dos outros, aborrecerei o leitor com narrativa mais detalhada do que a por ele talvez exigida. Não se deve esquecer, contudo, que o período em que visitei esta capital, constituindo uma era política nos anais do Brasil, é suficientemente interessante para desculpar-me, senão justificar-me, da tentativa de aprimorar as descrições de um período mais remoto, embora correndo o risco de pequena repetição.
A melhor vista da cidade é a da baía, onde as suas altivas eminências, cobertas de conventos, e as colinas dos arredores, entremeadas de vilas e jardins, oferecem aspecto rico e majestoso. O palácio real confina com o mar e se destaca desde o ancoradouro principal, a sessenta jardas de suas portas. Embora pequeno, é a residência do Príncipe Regente e da família real: a casa da moeda e capela real fazem parte de sua estrutura. Paralelamente à praia, corre a rua principal, chamada Rua Direita (1), com nobres construções, de onde partem as ruas menores, formando ângulos retos e entrecortadas por outras, a distâncias regulares.
Pode-se fazer ideia aproximada da extensão da cidade, pela população, que, incluindo os negros (a sua porção mais numerosa), está avaliada, em cem mil almas; as habitações em geral possuem um único andar.
Os numerosos conventos e igrejas são bem construídos e até bonitos; a catedral, recentemente terminada, é de nobre estilo de arquitetura. As ruas eram, a princípio, atravancadas por balcões de grade, de aparência muito pesada, impedindo a circulação do ar, mas foram retirados por ordem do Governo. Os maiores incômodos que ainda perduram resultam do costume das pessoas de todas as categorias de andar a cavalo nas calçadas, e das quinquilharias penduradas nas lojas e nas portas das casas, que se abrem todas para a rua, com grande aborrecimento para os pedestres; posso acrescentar também as inúmeras poças de água estagnada, que, por ser baixo o lugar, só com muito trabalho podem ser drenadas e, no verão, emitem as mais pútridas exalações. A água que abastece a cidade vem das montanhas, através de aquedutos e é distribuída às várias fontes em diversos logradouros públicos. É lastimável não sejam mais numerosas, para o abastecimento dos habitantes, muitos dos quais vivem a uma milha de distância de qualquer delas e são forçados a empregar pessoas continuamente no transporte de água; muitos pobres ganham a vida vendendo-a. A água é boa, e quando guardada em grandes talhas, fresca e agradável. As estalagens e tavernas são quase destituídas de acomodações, e tão inconfortáveis que um estrangeiro nelas só residirá se não encontrar amigo que o hospede. O aluguel das casas, em geral, é tão elevado quanto em Londres, devido, ao que parece, à falta de materiais de construção e ao alto preço da alvenaria. A madeira é, em regra, muito escassa, considerando– se a quantidade que cresce em quase todas as regiões do Brasil; mesmo a lenha é cara. As provisões, geralmente abundantes, mas de qualidade pouco escolhida; a carne, não digna de menção, é, na verdade, má; a de porco, melhor e, se fosse bem preparada, poderia tornar-se ótima; a de carneiro é quase tão desconhecida, que os nativos não a comeriam (2); excelente a criação de toda espécie, mas muito cara. Legumes e vegetais, de todas as qualidades, muito abundantes, e o mercado de peixe não está mal abastecido. Apanham-se muitas tartarugas, assim como grande variedade de peixe; existem numerosos lagostins, muito saborosos e grandes. As ostras e mariscos, embora inferiores aos nossos, são passáveis.
Em consequência de sua situação baixa, e da imundície das ruas o Rio de Janeiro não pode ser considerado saudável. Fazem– se, atualmente, melhoramentos, que remediarão, em parte, esses males; mas outros motivos tendem a aumentar a insalubridade da atmosfera e a espalhar males contagiosos, sendo o principal a vasta importação de negros da África, que habitualmente desembarcam em estado doentio, consequência de viagens destituídas de qualquer conforto, em local quente e apertado. É lamentável que a cidade não tivesse sido inicialmente construída segundo plano semelhante ao dos Países Baixos, com canais para brigues e pequenos navios, que poderiam ser descarregados nas portas dos armazéns; tal melhoramento contribuiria, também, para o asseio e salubridade da cidade.
A polícia não é, de modo algum, mal regulamentada; e levando-se em conta a atenção que mereceu, desde a vinda da Corte, há toda esperança de que será colocada em posição respeitável, em pé de igualdade com a de qualquer capital europeia. As prisões repugnantes reclamam o gênio benevolente de um Howard para reformá-las. Deu-se um grande passo a favor da humanidade: a Inquisição foi abolida e com ela o espírito de perseguição; assim, ninguém pode agora ser injuriado em virtude de dogmas religiosos, a menos que ataque abertamente a religião oficial.
Essa cidade é o principal empório do Brasil e, em particular, das províncias de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Cuiabá e Curitiba. Os distritos de mineração, sendo mais populosos, exigem a maior parte dos produtos de consumo e, em retribuição, enviam artigos de comércio mais valiosos; daí as inúmeras tropas de mulas, que viajam continuamente para este distrito e dele partem; a carga usual é de três cwt. cada uma, carregada, por distâncias quase inacreditáveis, de 1.500 a 2.000 milhas. O frete de retorno consiste, principalmente, de sal para o consumo do gado e ferro para o trabalho das minas.
Nenhum porto colonial do mundo está tão bem localizado para o comércio geral, quanto o do Rio de Janeiro. Ele goza, mais do que qualquer outro, de iguais facilidades de intercâmbio com a Europa, América, África, Índias Orientais e as ilhas dos Mares do Sul, e parece ter sido criado pela natureza para constituir o grande elo de união entre o comércio dessas grandes regiões do globo. (3). Dominando também, como capital de vasto e rico território, imensos e valiosos recursos, exigia somente um governo eficiente, que lhe desse prestígio político, e agora adquiriu esta vantagem, ao ser escolhida para residência, da Corte de Portugal. Os benefícios resultantes deste grande acontecimento começaram apenas a se manifestar, na época a que se refere esta narrativa, e as relações comerciais do Rio de Janeiro, embora consideravelmente aumentadas, estavam, ainda, porém, em princípio. Procurei fixá-las, de acordo com as melhores informações que pude obter.
As importações do Rio da Prata e do Rio Grande de São Pedro compreendem quantidades imensas de carne seca, farinha, couro e trigo. As dos Estados Unidos, principalmente provisões salgadas, farinha, mobília, piche e alcatrão. Os norte-americanos enviam, em geral, cargas destes artigos para especulação e, como o mercado é flutuante, e nele não podem confiar, levam-nas, com frequência, para outros portos. Seus produtos são enviados comumente para o Cabo da Boa Esperança. Trazem mercadorias europeias, que trocam por especiarias, para comerciar com a China, e tomam também o necessário às suas viagens para os Mares do Sul.
Da costa oriental africana, o Rio de Janeiro importa cera, óleo, enxofre e algumas madeiras. O tráfego dos negros restringiu-se ao Reino de Angola, por decreto do Príncipe Regente, que proclamou seu intento de aboli-lo por completo, o mais depressa possível.
O comércio em Moçambique é insignificante; mas, desde que a captura da ilha de França pelos ingleses limpou aquela costa de piratas franceses, pode-se esperar o seu aumento. Ela produz muitos artigos de valor, tais como: ouro em pó, trazido do interior, marfim, do qual o Príncipe monopoliza a maior parte, ébano e outras madeiras finas, drogas, óleos, excelente raiz de columbino e grande variedade de goma, principalmente de goma-meni. As pescarias de baleia, ao longo da costa, constituíram fonte de riquezas para muitos especuladores.
O intercâmbio deste porto com a Índia, e com Moçambique tem sido muito prejudicado pelos piratas da Ilha de França, e, daqui em diante, provavelmente, também florescerá com o seu extermínio. Realiza-se com grande rapidez a viagem de ida e volta: um navio grande, de oitocentas toneladas, que parte, carregado, para Surat, volta depois de sete meses. A viagem à China raramente é mais demorada. O comércio, não há dúvida, se intensificará e, segundo todas as probabilidades, este porto se tornará, dentro em breve, entreposto para os produtos da Índia, destinados à Europa.
O Rio de Janeiro está muito bem localizado para suprir o Cabo da Boa Esperança e a Nova Gales do Sul de grande número de coisas necessárias; na verdade, nos últimos anos, manufaturas inglesas têm sido aqui vendidas tão baratas que se verificou ser mais vantajoso enviá-las diretamente deste porto para aquela colônia, do que exportá-las da mãe-pátria. Os barcos dos pescadores da baleia dos Mares do Sul aportam aqui e se abastecem de grandes estoques de bebidas, vinho, açúcar, café, tabaco, sabão e provisões de boca.
As importações da mãe-pátria consistem, principalmente, em vinho e azeite. Ocasionalmente importam algum ferro da Suécia; preferem o ferro inglês para ferraduras, devido à sua ductilidade.
As exportações compreendem, acima de tudo, algodão, açúcar, aguardente, madeira para construção de navios, várias madeiras finas de marcenaria, peles, banha, anil e algodão bruto, para os peões das províncias do Rio da Prata. Entre os artigos de exportação mais valiosos podem ser citados o ouro, dia– mantes, topázios de várias cores, ametistas, turmalinas (vendidas em geral por esmeraldas) berilos, águas marinhas e joias falsas.
Este mercado tem sido abarrotado de mercadorias inglesas, em consequência de especulações excessivas, a que os nossos comerciantes foram incitados pela última emigração. A oferta excedeu a procura, em grau duplicado, e o excedente originou leilões, onde as mercadorias foram vendidas a preços reduzidos, sem precedentes. À medida que as mercadorias inglesas barateavam, as do Brasil aumentavam de valor, e a procura se tornou tão grande, devido ao enorme número de navios aguardando as cargas, que, um ano depois da chegada do Príncipe Regente, o valor de cada artigo duplicara. O ouro desapareceu rapidamente, pois os portugueses endinheirados, percebendo a avidez e a falta de escrúpulos com que os ingleses procuravam impingir-lhes as mercadorias, guardavam, cuidadosamente, o seu numerário e, pela alternativa da troca, vendiam os seus próprios produtos por preço muito alto, e obtinham as nossas mercadorias quase pelo preço do custo. Os que perdiam nesse negócio desigual, embora fossem os maiores culpados, devido à sua própria imprudência em meter-se nele, dirigiam suas queixas e acusações contra os negociantes portugueses. Assinou-se um tratado de comércio, pelo qual as taxas sobre as mercadorias inglesas, ou melhor, sobre todas as mercadorias estrangeiras, que eram de 25%, ficavam reduzidas a 15%, ad valorem. Nomeou-se um juiz para atender exclusivamente aos interesses ingleses, e fazer com que se lhes fizesse justiça. Recebeu o título de Juiz Conservador da Nação Inglesa. A pessoa que ocupa atualmente este importante cargo é um dos homens mais esclarecidos e honestos; sua conduta oficial, que tive ocasião de observar, granjeou-lhe o respeito de todas as partes e deu-lhe direito à escolha do Príncipe Regente, confirmada pela aprovação de Sua Excelência, Lord Strangford. Além disso, para cultivar e ampliar os interesses comerciais, Sua Alteza Real criou uma Junta de Comércio, onde servem homens experimentados e inteligentes, a cujo parecer são submetidos todos os casos particulares e todos os novos regulamentos. Um dos membros dessa Junta, Dr. Lisboa, (4), distinguiu-se muitíssimo, pelo seu zelo para com a nação britânica, demonstrado em diversas publicações sobre o comércio, principalmente em uma, datada de maio, 1810, (5), que contém sólida argumentação, baseada em princípios expostos e reconhecidos pelos nossos mais célebres estadistas e escritores políticos. Deve-se esperar que a propagação de princípios tão liberais, sob os auspícios dos ministros, venha a banir este princípio tacanho com que certos indivíduos opulentos da capital brasileira olham os comerciantes ingleses, estigmatizados como intrusos; e que os interesses comerciais, em geral, nesta prospera colônia, ganhem, pela competição honesta, o que perderam até aqui devido aos mercados super-abarrotados.
Os negócios da alfândega embora ainda embaraçados por muitos regulamentos irritantes e enfadonhos, em particular no que se refere a pequenos artigos, têm sido consideravelmente simplificados; e em qualquer caso, quando um estrangeiro se encontra em apuros, quanto ao processo a seguir, pode estar certo de que todas as dúvidas se esclarecerão e todos os obstáculos serão removidos, apelando para o Juiz que preside este departamento. A liberalidade e desinteresse deste excelente funcionário poderão ser melhor avaliados e reconhecidos, tendo-se em vista que, sua posição poderia levá-lo a embaraçar o comércio, se fosse mais rigoroso na execução das leis.
Ao mencionar as vantagens para os negociantes ingleses decorrentes da liberalidade das pessoas em função, não devo omitir muito haver sido realizado em virtude dos esforços do ministro inglês, que, embora seguindo linha de conduta conciliatória e moderada, que lhe valeu a estima do Príncipe Regente, sempre defendeu com firmeza os interesses de seu país, e, em todas as deliberações a ele concernentes, reservou para si o voto de Minerva. É verdade que se recusava a ser incomodado por questões triviais e escrupulosamente desaprovava qualquer tentativa encoberta de monopólio ou peculato, partisse de onde partisse: mas, em questões de responsabilidade, agia com rapidez e decisão, nem se negava a usar sua influência a favor de alguém, quando se lhe fazia pedido honesto e nobre. Considerando-se as circunstâncias especiais relativas à embaixada, e também os interesses discordantes que teve de conciliar, Lord Strangford conduziu-se de maneira altamente honrosa para seu talento e caráter; e, continuando a merecer a confiança de sua própria Corte, assegurou a do Príncipe Regente e a de todos os ministros. O tratado de comércio concluído há pouco é prova da harmonia subsistente entre eles, e deve ser considerado, da nossa parte, como o mais vantajoso que poderia ser conseguido, nas condições atuais dos negócios.
O porto, falando de modo geral, é de fácil acesso em qualquer época, pois existe uma alteração diária de brisa terrestre e marítima; a primeira sopra até o meio-dia, e a última desta hora até o pôr do sol. Os navios encontram todas as facilidades para reparos, virar de carena, etc., mas se espera que se construam, dentro em breve, docas, tornando desnecessária a última operação aborrecida e perigosa. Paga-se taxa de ancoragem, que constitui um item da regulamentação de direitos portuários.
Da sociedade no Rio de Janeiro, o que tenho a observar, difere pouco da descrição já feita dos paulistas. Os mesmos hábitos e maneiras predominam em ambos os lugares, com ligeiras modificações, motivadas pela grande afluência de estrangeiros à capital. Os portugueses são, em geral, escrupulosos e reservados em admitir estrangeiro a suas reuniões familiares; mas, recebendo-o uma vez, mostram-se francos e hospitaleiros. As senhoras são afáveis e corteses para com os estrangeiros, excessivamente vaidosas, porém, menos orgulhosas do que as das outras nações. Nas reuniões mistas, requintadas por aquela extrema delicadeza que em geral caracteriza os portugueses, reina a maior alegria. A palestra dos homens educados, contudo, é mais animada do que instrutiva, pois a educação aqui está em um nível baixo, compreendendo um curso limitado de literatura e ciência. É justo acrescentar que, desde a chegada da Corte, foram adotadas medidas para efetuar uma reforma completa nos seminários e outras instituições de instrução pública; e que o Príncipe Regente, na sua solicitude pelo bem estar de seus súditos, zelosamente patrocinou todos os empreendimentos, para neles desenvolver o gosto pelos conhecimentos úteis. Sob seus auspícios, o colégio São Joaquim sofreu melhoramentos consideráveis: instituiu-se uma cadeira de química, para a qual foi nomeado, por Sua Alteza Real, um meu compatriota, Dr. Gardner, e espera-se que a partir desta nomeação se possa assinalar a data do início da filosofia experimental naquele estabelecimento.
Volvendo à minha narrativa, afirmo, com serena gratidão, haver minha recepção aqui excedido a toda expectativa, ou, melhor, a qualquer pretensão individual em que podia baseá-la. Devo atribuí-la à carta de apresentação ao Vice-Rei, com que me honrou o embaixador português em Londres, quando de lá parti, e que entreguei ao Conde de Linhares, nobre parente do embaixador, e Ministro das Relações Exteriores (6). Este ilustre homem de Estado concedeu-me todas as atenções e todos os privilégios que lhe pedi. Assim, graças a sua bondosa condescendência, tudo me correu bem. Posso fazer esta afirmação, sem o risco de ser considerado vaidoso, desde que isto foi somente uma entre as numerosas provas que deu da sua boa vontade em servir aos ingleses, (7), por todos os meios ao seu alcance.
Vue de chateau impérial de Santa-Crux; Inscription du rocher dos Arvoredos (des Buissons).Algumas semanas após a minha chegada, pedi permissão a Sua Excelência o Conde de Linhares para trabalhar numa mina de ferro em Guaraciaba, fazendo-lhe ver, ao mesmo tempo, as imensas vantagens que adviriam para o Estado de tal experiência, ao explorar os seus próprios recursos, para suprimento daquele metal. Ele concordou, em parte, com a proposta, mas manifestou desejo que eu dedicasse antes alguns dias a uma inspeção à fazenda do Príncipe, em Santa Cruz e, ao voltar, fizesse um relatório sobre as condições em que a encontrara. Enquanto me preparava para a jornada, insinuaram-me, como desejo particular do Príncipe, que me esforçasse por estabelecer uma indústria de laticínios, nos moldes das inglesas, e orientasse o pessoal no seu funcionamento, no que prontamente assenti. A cavalo, e tendo um soldado à minha disposição, iniciei a jornada, em companhia de um cavalheiro chamado Paroissien, cujo gênio amável e conhecimentos científicos tornavam utilíssimo companheiro. Depois de cavalgarmos cinquenta milhas, chegamos à fazenda, cerca de seis horas da tarde, muito fatigados. As acomodações que encontramos, justificaram plenamente o interesse de ministro de Sua Alteza Real, inquirindo sobre o estado de seus domínios. Tendo apresentado minhas credenciais, fui forçado a esperar até às dez horas, sem que me oferecessem qualquer refrigério, nem mesmo uma xícara de café; o único prato que nos serviram foi um pouco de carne, semi-crua, certamente a pior que provei no Brasil. O mulato que nos atendeu comprometeu-se a aprontar o almoço para as sete horas da manhã; ficamos prontos à hora estipulada e, embora assegurasse que nos serviria imediatamente, esperamos três horas e, quando já pedíramos os cavalos para voltar ao Rio, afim de evitar morrêssemos de fome, anunciaram a refeição, com a desculpa de que não a tiraram mais cedo por falta de leite.
Passei então revista ao estabelecimento e percorri as terras. A casa, segundo me informaram, fora convento de jesuítas, donos também das terras que a circundavam, das quais cuidaram melhor que seus sucessores, se pudermos julgar pelos remanescentes de seus empreendimentos. O edifício não é grande nem imponente; construído em forma quadrangular, com um pátio aberto no centro e galerias no interior, para o primeiro e segundo andares. 0s alojamentos são em número de trinta e seis, muito pequenos, tendo sido adaptados para o uso da comunidade e, desde que os jesuítas partiram, foram ligeiramente alterados e decorados para receber a família real, como residência de verão. Em frente à casa, em direção ao sul, estende-se uma das mais belas planícies do mundo, de duas léguas quadradas, regada por dois rios navegáveis por pequenas embarcações, e limitadas por belo e altivo cenário rochoso, embelezado em vários pontos por árvores nobres da floresta. Esta planície está coberta pelo mais rico pasto, que sustenta de sete a oito mil cabeças de gado. A parte baixa que é considerável, apresenta-se entrecortada de pântanos, que podem ser drenados facilmente e tornarem-se cultiváveis. O parque abrange, em toda a sua extensão, área superior a cem milhas quadradas, território quase tão grande quanto o de alguns recentes principados italianos, e capaz, em virtude de sua fácil comunicação com o capital, tanto por via terrestre quanto fluvial, de transformar-se numa das mais produtivas, e populosas do Brasil. Com o atual sistema, encontra-se em estado progressivo de decomposição; dois pequenos trechos, os melhores da terra, um com cerca de meia légua quadrada e outro com mais de uma, já foram vendidos, por meio de falsos expedientes, e o restante pode, em pouco tempo, ser sacrificado a homens cuja cupidez incita-os a depreciar o seu valor, a menos que se empreguem as medidas adequadas a frustrar os seus maus intuitos.
Nesta fazenda, os negros, segundo todos os dados que obtive, sobem a cerca de mil e quinhentos. Constituem, em geral, excelente classe de homens, de ânimo dócil e tratável, e de modo nenhum destituídos de inteligência. Esclarecê-los tem dado grande trabalho; são regularmente instruídos nos princípios da fé cristã e as orações lhes são lidas, publicamente, pela manhã e à noite, ao iniciar e ao terminar o dia de trabalho. Pequenas áreas de terreno, por eles escolhidas, lhes são concedidas, e dão-lhes dois dias na semana, além dos feriados fortuitos, para plantar e cultivar os produtos destinados à sua própria subsistência; o resto do tempo e do trabalho dedicam ao serviço de Sua Alteza. O sistema de administração, entretanto, é tão mau, que vivem semi-famintos, quase desprovidos de roupas e mais do que miseravelmente instalados; o salário médio não atinge um penny por dia. Uma reforma no estabelecimento poderia ter sido realizada facilmente, mas agora será muito difícil, pois os abusos foram tacitamente sancionados pela indiferença daqueles cujo dever e interesse era corrigi-los. Nesta extensão de magnífico terreno vê-se raramente um cercado; as terras cultivadas estão cheias de mato, e as plantações de café assemelham-se a um matagal, onde os arbustos silvestres cobrem a lavoura. O gado está deploravelmente abandonado, e não se encontra, em todos os arredores, sequer um cavalo digno de ser montado pelo mais miserável mendigo. Tal era o estado em que encontrei este rico e vasto distrito, que parece ter sido destinado pela natureza à introdução de melhoramentos que poderiam determinar pela influência de um exemplo elevado, modificação completa no sistema agrícola do Brasil.
Palácio de Santa Cruz em 1823 - Desenho de Maria Graham
Palácio de Santa Cruz em 1823
Desenho de Maria Graham
Pouco tempo depois de me instalar em Santa Cruz, o Príncipe apareceu. No dia imediato, à sua chegada, honrou-me com uma visita, depois da qual saí várias vezes com sua Alteza Real. Um dia, deu-me a honra de manifestar o desejo de que me encarregasse da administração da fazenda; pedi licença para declinar desta proposta, alegando a impossibilidade de conciliar tal emprego com os meus outros interesses, lembrando ao mesmo tempo o serviço superior que podia prestar trabalhando na mina de ferro. Não obstante isto o Príncipe, no dia seguinte, entregou-me um papel, contendo uma proposta para superintender toda a fazenda e estabelecendo as condições. A insistência na oferta não me embaraçou pouco; tinha consciência de que, recusando-a, me privava de qualquer favor futuro; ainda assim, compreendi a dificuldade de aceitá-la de qualquer forma. Este dilema causou-me tal inquietação, que, para resolvê-lo, recorri a Sir Sidney Smith, que naquela ocasião visitava Santa Cruz, pedindo-lhe expusesse a Sua Alteza Real as circunstâncias que me impossibilitavam de fixar-me no Brasil, e lhe oferecesse meus serviços durante a minha estada. Depois de mais algumas deliberações, porém, persuadiram-me a aceitar a designação, a título de experiência, por alguns meses, com a estipulação expressa de que agiria com absoluta autonomia. Ao empossar-me do cargo, comecei por tomar providências que pareciam conduzir ao fim desejado, mas não tardei a perceber que, em lugar de ser o principal intendente, tinha um superior, a fazer-me responsável, perante ele, por todos os meus atos, e a manifestar a determinação de embaraçá-los, por inovações à ordem pré-estabelecida, Mas este não era o único inconveniente; espetava-se que eu adquirisse tudo quanto precisasse às minhas expensas, mas não tardei a perceber, que, em lugar de ser reembolsado, segundo o acordo, era enganado, e por fim, em parte, roubado. A pessoa a quem aludo era um dos capatazes da casa do Príncipe; concebera ódio enraizado pelos ingleses, não podendo tolerar que alguém daque1a nação interferisse num assunto que julgava de sua competência, e que mantivesse posição capaz de permitir fossem os serviços reais prestados levados a comparação desfavorável com os que se gabava de ter efetuado. Não entrarei em detalhes quanto aos artifícios mesquinhos e aos baixos insultos indiretos que este homem empregou para fazer-me abandonar o emprego, quando se certificou de que não me sujeitaria ao seu trabalho servil; isto é suficiente para explicar que, perdendo as esperanças de obter aquele poder discricionário, sem o qual nada podia realizar, recusei-me peremptoriamente a continuar. Alarmado com esta deliberação, primeiro tentou intimidar-me e, depois, abrandar-me, mas já conhecia demais a sua maneira de agir para deixar-me enganar por este estratagema, ou supor que no futuro nos pudéssemos harmonizar. Imaginando-se armado do poder real, tentou fazer-se de tirano, mas a recepção que encontrou forçou-o rapidamente a voltar ao seu natural, o de velhaco servil. Não hesitei em mandar minha demissão e ele passou pela mortificação de verificar que os meios empregados para embaraçar-me e escravizar-me me restituíram a liberdade.
Na carta em que comunicava o meu propósito de abandonar o emprego, julguei mais razoável não declarar à sua Excelência Dom Rodrigo as razões que motivaram tal deliberação. Se este cavalheiro conhecesse as circunstâncias desagradáveis em que me colocara, teria, estou certo, envidado todos os esforços para removê-las, mas julguei indigno de minha pessoa queixar-me, sabendo que, enquanto aquele homem permanecesse, eu seria considerado como lacaio de um servo do Príncipe, e não de Sua Alteza. Condição tão degradante impedirá sempre qualquer inglês de empreender a realização dos excelentes e esclarecidos planos projetados pelos ministros de Sua Alteza Real, para melhorar a agricultura de Santa Cruz, pois quem se submeteria às ordens de um subalterno, cuja arrogância e obstinação estão continuamente interrompendo e frustrando aqueles planos?
Quando voltei ao Rio de Janeiro, o Príncipe chamou-me e pediu-me, com insistência, voltasse a Santa Cruz; contentei-me com uma simples desculpa, pois não era oportuno, nem eu estava em situação de entrar em explicações. É sabido que um sistema de intrigas cerca Sua Alteza Real, contrapondo-se, muitas vezes, às representações, em assuntos da mais alta importância.
Notas:
  1. Atualmente Rua 1.º de Março. (R. L.).
  2. Por experiência matei alguns e os que provavam a carne admitiam ser excelente; mas um ou outro estranho preconceito impede que os habitantes a sirvam na mesa.
  3. O Rio de Janeiro desempenhou efetivamente esse papel até a abertura dos canais de Suez e do Panamá. O comércio era então intenso com os portos do Pacífico e do Extremo Oriente. As mercadorias da China, do Japão e também da Costa da África chegavam-nos em abundância e por preços muito cômodos, pois muitas vezes não pagavam fretes, vindo como lastro nos porões dos navios de carga, e os intermediários eram poucos. Ainda podemos ver nos antiquários do Rio de Janeiro, com bastante frequência, objetos antigos de marfim, sândalo, lacas, móveis com embutidos de marfim e madrepérola, e porcelanas, chamadas estas últimas da Índia, ou Companhia das Índias, por serem trazidas para o Brasil nos navios dessa Empresa, embora procedessem do Celeste Império. Quase todas as famílias de tratamento possuíam baixelas e aparelhos para chá da Índia, feitos, às vezes, de encomenda, e decorados a gosto do possuidor e com, o seu brasão d’armas, quando o tinha. A louça azul, ou de Macau, como era conhecida, procedia de manufaturas de Shanghai ou Shiangsi, e tiravam o nome da cidade sino-portuguesa que servia de entreposto ao comércio, da mesma forma que a pimenta do Oriente e os queijos de Holanda são ainda hoje chamados no Brasil pimenta e queijo do Reino, por nos chegarem através da metrópole durante os tempos coloniais. A louça de Macau, hoje tão cara e apreciada pela raridade, era baratíssima; vinha como lastro no fundo dos navios, e se julgava indigna de aparecer nas mesas da aristocracia e da burguesia opulenta, sendo relegada ao uso dos criados e dos dependentes de baixa condição social (R. L.).
  4. José da Silva Lisboa, visconde de Cairú, nasceu na Bahia, a 16 de Junho de 1756 e faleceu no Rio de Janeiro a 20 de Agosto de 1835. Era formado por Coimbra em Cânones e Filosofia (1779), e desempenhou importante papel na história comercial do país sugerindo ao Príncipe Regente D. João a célebre lei de 28 de Janeiro de 1808, chamada da abertura dos portos. Escreveu numerosos panfletos sobre matérias econômicas, políticas e históricas. Partidário, como o seu compatriota e contemporâneo o bispo Azeredo Coutinho das ideias de Adam Smith, foi entre nós um dos paladinos do liberalismo econômico e do livre-cambismo da chamada escola de Manchester, contrária aos monopólios de qualquer espécie. Era irmão do célebre botânico e cronista Dr. Balthazar da Silva Lisboa, e pai do Conselheiro Bento Lisboa, ilustre diplomata da época imperial (R. L.).
  5. Em 1810 publicou o Dr. José da Silva Lisboa o “Discurso sobre a franqueza do Comércio de Buenos Aires”, traduzido do espanhol, e “Observações sobre a franqueza da Indústria e Fábricas no Brasil”, trabalho original. As obras de Cairu mais importantes nesse ramo foram, todavia, os “Princípios de Direito Mercantil”, Lisboa, 1801 e “Princípios de Economia Política”, Lisboa, 1804. Os “Princípios de Direito Mercantil” fizeram época, foram reimpressos mais de uma vez, inclusive em Londres. (R. L.)
  6. D. Domingos Antônio de Souza Coutinho, Conde e depois Marquês do Funchal, Embaixador de S. M. Fidelíssima junto à Corte de S. James, era irmão e não apenas parente do Conde de Linhares, ministro de D. João. A Livraria Coelho, de Lisboa, anunciou à venda no seu catálogo n.º 14 (1930), item n.º 1064, uma carta autógrafa escrita do Rio de Janeiro a 8 de Junho de 1.810 por Francisco Bento Maria Targini, 1.º barão e 1.º visconde de S. Lourenço, ao Marquês do Funchal. Targini era Tesoureiro-Mor do Erário, cargo correspondente atualmente ao de Ministro da Fazenda, e como, pelo que diz o catálogo, a carta versa sobre a exploração dos diamantes no Brasil, é quase certo que encerre dados interessantes sobre as atividades de John Mawe, e as sugestões que diz ter feito a respeito ao governo português (R. L.).
  7. O Conde de Linhares foi sempre muito apologista dos ingleses, embora, bom e leal português, jamais sacrificasse, pelo menos conscientemente, os interesses de sua pátria aos do estrangeiro. D. Carlota Joaquina, como princesa espanhola que era, não o podia suportar, dado o tradicional antagonismo entre as políticas britânica e castelhana, e a influência que o ministro sempre exerceu junto ao Príncipe Regente. Entre os apelidos depreciativos com que o designava, era um o de Torvelinho, com o qual certamente mostrava atribuir-lhe atitudes de política tortuosa e mistificadora. V. Presas: Memórias Secretas de D. Carlota Joaquina. Irmãos Pongetti – Zelio Valverde, Editores, Rio de Janeiro, 1940, pag. 70 (R. L.)
Fonte:
[mawe1944] J. Mawe, Viagens ao Interior do Brasil, Principalmente aos Distritos do Ouro e dos Diamantes, Valverde, Z., Ed., , 1944.

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