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Santa Cruz, por Luiz Edmundo e Debret

Batalhão Villagran Cabrita em Santa Cruz
Batalhão Villagran Cabrita situado no antigo Convento dos 
Jesuítas de Santa Cruz, posteriormente Palácio Real e Imperial de Santa Cruz.

Para maior recreio e melhor pouso da Real Família escolheu-se, a quatro léguas de São Cristóvão, uma fazenda semiabandonada, chãos que outrora pertenceram aos padres jesuítas, grandes campos de gado, terras aos mesmos confiscadas pelo governo de Pombal, quando expulsou do Reino e seus domínios os homens da Companhia de Jesus. Férteis e magníficas campinas de bom pasto, rios, brejais, montanhas e o mar tranquilo, próximo, garantindo uma segura e fácil ligação por via d’água com esta cidade.
O jesuíta, para explorar melhor o sítio exuberante, aí criara benfeitorias vultosas: diques, canais, engenhos, casas. Plantara a cana de açúcar, a mandioca e arvoredo de fruto. O gado que possuía, além de numeroso, era escolhido. Cerca de quinze mil cabeças, só de vacum! E negros, negros em quantidade (cerca de dois mil), que o bom filho de Deus vivia acasalando na ânsia de o ver reproduzir, a fim de assegurar, de tal sorte, o braço mais do que necessário ao labor de sua empresa e um consequente capital, representando altíssimo negócio pelo tempo.
O confisco ordenado por Lisboa, porém, entregando a gerência da valiosa empresa a emissários do Reino, lançou-a na maior das decadências. Ignorantes ou arraposados administradores, de tal modo se houveram na direção da mesma, que vinte anos não haviam decorrido e já por sobre a gleba dadivosa nada mais existia que a lembrança de energias passadas e da atividade dos bons tempos, de todo e para sempre desaparecidas. E quanto mais iam correndo os anos, mais aumentava o rápido declínio daquele estabelecimento portentoso. Em 1808, os campos de Santa Cruz nada mais eram que uma triste ruína. As grandes plantações tinham diminuído de maneira singular. O gado, em manadas ariscas e selvagens, fugia, para as matas mais vizinhas. Os escravos, sem nutrição, formavam bandos de esquálidas figuras, o casario em que moravam, a bem dizer, era um destroço. Caminhos, quase fechados pelo mato. Os canais entupidos. Os brejais alagados. A casa que servia de residência aos padres mostrava à vista os seus ossos de pedra e de tijolo. A capela outro escombro. Era a administração da colônia. O Brasil sob a jurisdição dos homens de além- mar.
Haviam os padres da Companhia de Jesus mandado construir, para residência, em uma parte elevada, dominando a paisagem, sombrio casarão, coisa precária e chã, dédalo de corredores e de celas, os telhados sem forro, solo de laje e terra… Carência de ar. Luz exígua. As paredes mostrando, como chagas, a queda, pela idade, dos rebocos.
A natureza verdejante, em redor, pagava, no entanto, em graça e encantamento, o desconforto material em que o homem vivia.
Marco da Fazenda Imperial de Santa Cruz

Quando se procurou um novo sítio de verão para nele instalar a Real Família, além do de São Cristóvão, bocas lembraram logo – Santa Cruz.
Para que S. A. o Príncipe-Regente tivesse do lugar uma impressão melhor, turmas de escravos para lá seguiram. Limpavam-se estradas, desentupiam-se canais, e obras grandes e sérias quase transformaram, por completo, a residência conventual dos padres jesuítas. Pôs-se na casa velha e abandonada, forro, soalho de madeira, novas esquadrias, novos rebocos, sendo que várias paredes derrubadas mudaram celas em salões. Abonitou-se o aspecto do monstro escaliçado e antigo. A própria ermida sofreu reparos. Substituíram-se retábulos, engalanaram-se santos, arearam-se melhor os metais das alfaias do serviço divino.
E um belo dia, o Sr. D. João apareceu, com os de sua família e muitíssimos nobres. Um delírio. Foguetes. Cabriolar de sinos, na capela. Os escravos, em linha intérmina, formados, sobraçando flores, folhagens, frutos, cantando loas ao grande Amo e Senhor.
Logo agradou-se do lugar, o Príncipe. Achou-o lindo e, sobretudo, muito a calhar com o seu feitio patriarcal. Que paz! Que natureza! Que lindos horizontes! Sobretudo, que magníficas pastagens! E a linha azul e altiva das montanhas em torno? Alegria maior, entretanto, foi a dos Infantes, ante os relvados vastos e sinuosos das campinas sem fim! Não fossem eles Bragança! Reclamaram, logo, cavalos. Já os havia preparados! Vieram ágeis e esplêndidas montadas. Dentro em pouco tempo as correrias começaram. Havia muito que o Regente não montava; no entanto, aprazia-se vendo os filhos manter as tradições da Casa, na arte da brida ou da gineta. Correu, de coche, isso sim, todo o seu domínio, minuciosamente, o visitando. E nele se instalou.
– Não fossem as obrigações da Regência, a natural dificuldade de me pôr em relação direta com os meus Ministros e os meus Conselheiros e em Santa Cruz viveria sempre, descuidado e feliz, disse ele, muitas vezes. E com sinceridade.
Nem o bom coro, em boa solfa, lhe faltava na hora da missa, na capela da habitação campesina.
Conta Adrien Balbi que, D. João, a vez primeira que assistiu à cerimônia religiosa com que se festejava a sua entrada na fazenda, deleitado, espantou-se, vendo uma orquestra que se formava só de negros escravos. Gozou a novidade, fez vir à sua real presença instrumentistas e cantores, a todos animando com fervor. E foi assim que obtiveram os pobres negros o que havia muito pediam, sem obter, isto é, uma escola de ler e de contar e, a mais, um curso de música vocal e instrumental, com músicos nomeados pelo Príncipe.
Parece que a ideia de organizar esses conjuntos musicais vinha do tempo dos jesuítas. Em livros de procedência lusitana chega-se a ler, até, que existia, por eles instituído – um conservatório de música, grotesca fantasia que pode muito bem acompanhar, no gênero, as inventadas só para melhor enaltecer os feitos dos colonizadores no país. O negro sempre amou, enormemente, a música. No Brasil colonial viveu sorrindo, cantando, mas sem conservatórios… O que é natural é que os padres jesuítas animassem o pendor que essa gente mostrava pela música, fornecendo-lhe estímulo e instrumentos. Escolas especializadas, porém, para eles, coitados, não havia. Se os brancos a não tiveram!
Ainda possuíam, esses negros escravos, um teatro onde representaram – o informe é do próprio Balbi – uma ópera especialmente escrita pelos irmãos Portugal.
Quando aqui esteve Mawe, o Conde de Linhares, inteligente e afoito, pediu-lhe que visitasse o domínio distante, que já servia a Sua Alteza Real, e que lhe desse, do que visse e julgasse, relatório e conselhos. Era de seu intuito melhorar a cultura da terra semiabandonada, restabelecendo a exploração do gado, intensificando-a. Pensava ainda na criação de um posto onde, ao menos para uso e gozo das reais pessoas, fabricar se pudesse o queijo e a manteiga.
Mawe, embora um tanto constrangido, aquiesceu ao pedido do Conde e foi a Santa Cruz, levado por um guia e mais uma ordenança do real serviço.
Teve de tudo quanto viu a pior das impressões.
Achou a terra formosa. E rica, mas, sem governo, sem trato, os serventuários do lugar, sem o menor conhecimento das coisas de que cuidavam, sem a menor ideia de disciplina no serviço. Informa ele que, ao chegar, pela primeira vez, à fazenda, às 6 horas da tarde, só pelas 10 da noite conseguiu receber um pouco de alimento. Nem uma taça de café pôde obter até então. No dia imediato, o seu almoço, marcado para as 7 horas, foi-lhe servido somente ao meio-dia! E o hóspede era um enviado do Príncipe-Regente, com carta e guia de um Ministro de Estado…
Mawe, antes de falar na gleba em abandono, no serviço do escravo desaproveitado, no plano da coroa, descreve a casa de morada (que já servia ao Príncipe), informando-nos que a mesma só possuía, então, 36 peças, todas muito pequenas, denunciando certo melhoramento para a instalação dos reais hóspedes. E extasia-se, como um poeta, diante da planície, em frente, chão verdoengo de 4 léguas de extensão, cruzado por dois rios perfeitamente navegáveis, com as margens todas bordadas de rochedos reluzentes e árvores frondosas. Dos brejais, que a sua vista alcança, fala, também, pensando que podem, depois de secos e aterrados, servir de campos ótimos para qualquer cultura.
Por essa época há, sobre o solo fértil, trabalhando, 500 negros, que vivem miseravelmente vestidos e “quase mortos de fome…”, declara ainda e, a seguir, vem um rosário de observações, marcando os vícios de uma administração ignorante e, além de ignorante, desonesta. Ervas daninhas crescem em meio às plantações de café, diz ele. Animais maltratados. Minados de doença. Tudo ao desmazelo.
Fez sinceramente o que devia, Mawe, no relatório apresentado ao Conde de Linhares. Ao próprio D. João, em São Cristóvão, falou, depois, lembrando alvitres e remédios capazes de transformar o sítio, que vivia em abandono, num verdadeiro paraíso.
Foi quando o Regente, então esclarecido sobre o caso e desejoso de pôr em prática os planos magistrais do inglês arguto, sem a menor cerimônia, lhe foi dizendo:
– Pois irá o Sr. Mawe dar ao que viu jeito, e progresso, pois o nomeio, desde já, para o cargo de administrador da fazenda…
Cruz dos Jesuítas em Santa Cruz

Mawe espantou-se com a estapafúrdia ideia. Administrador de fazenda, ele, que ao Brasil não vinha para exercer empregos subalternos, mesmo na Casa Real! Naturalmente, fez ver ao Príncipe a impossibilidade de assumir o posto que lhe fora oferecido. Não era um homem cujas atividades devessem ser aproveitadas em encargos tão ao alcance de qualquer. O relatório, amavelmente, por ele apresentado, bastaria como guia a quem lograsse, apenas, uma vulgar aptidão para coisas de campo e amor ao Real Serviço.
D. João, no entanto, bateu o pé, teimou. O administrador da Fazenda de Santa Cruz havia de ser ele, John Mawe! Que se apresentasse para assumir o cargo.
Valeu-se o pobre Mawe de Sidney Schmidt, comandante da esquadra inglesa, surta neste porto, pedindo- lhe que explicasse melhor a Sua Alteza as circunstâncias que o impediam de aceitar tão precário lugar. Sidney Schmidt nada, porém, obteve, numa entrevista que o Regente, para tratar do assunto, lhe concedeu.
E Mawe teve que seguir para a Fazenda Real de Santa Cruz, como empregado de Sua Alteza Real!
Assumindo o seu posto, não pôde, no entanto, praticar os benefícios que pensava, no intuito natural de pôr em ordem a exploração da terra. Começa Mawe, logo ao iniciar os seus trabalhos, lutando contra a má vontade de todos os funcionários do lugar. Intrigam-no, ao fim de certo tempo. Nota, depois disso, que as intrigas produzem certo efeito junto ao Regente, que não vê nem nada sabe do que se passa em Santa Cruz. Certo dia nota que já não manda. Que há ordens vindas de fora, valendo mais que as suas. Aparece-lhe até um mandão, com cara de fiscal, ao pé de si, cheirando-lhe o serviço, quiçá, contrariando-o a cada instante. Quer abandonar o posto. Seguram-no, de novo. Mawe insiste, porém, e insiste de tal forma que sempre acaba obtendo o que deseja.
E Santa Cruz continua, depois disso, a ser o que era sempre, depois da administração dos jesuítas, uma linda paisagem. Apenas.

Palácio de Santa Cruz em 1823
Desenho de Maria Graham

Com o tempo foram-se realizando, na casa da fazenda, alguns melhoramentos. Hoje, de duas ou três celas fazia-se um salão. Construíram-se, depois, aumentando o corpo do edifício, novos compartimentos; aqui, salas; acolá, quartos. Reformou-se a capela. Por ocasião do casamento do Príncipe D. Pedro, as obras tomaram, então, vulto maior. Durante meses e meses operários ativos quase transformaram a morada de campo em uma casa melhor. Dos Paços de São Cristóvão e da Cidade seguiram móveis, sanefas e tapetes. Embonecou-se a residência, para que a noiva, que vinha de uma corte portentosa, aí não se sentisse mal.
Não se sabe a impressão que teve D. Leopoldina, da casa transformada. Era a mulher de D. Pedro uma criatura mais do que discreta. E, sobretudo, conformada. O que se sabe é que só muitos anos depois, pela Independência, foi que a fazenda melhorou, realmente, um poucochinho, após obras mais sérias e após os surtos de uma administração mais vigorosa e, sobretudo, mais honesta. 

Fonte:
[LuizEdmundo1957] L. Edmundo, A Corte de Dom João no Rio de Janeiro (1808-1821), Segunda ed., Conquista, Ed., , 1957.

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